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Urbanas, elas estão invadindo as ruas da cidade.

  • Postado em 10/06/2019

Avalanches de carros, pelas ruas das cidades, eram as únicas visões possíveis a enquadrar nossos olhares, há pouco mais de dez anos atrás. A torrente, agora, é de bicicletas. Não, não se trata de idealismo, mas de constatações comparativas.

Seja aqui no Sul do Brasil ou nas demais regiões, elas estão ganhando territórios numa velocidade que surpreende e, na mesma intensidade, talvez, que seus usuários acabam por levar suas experiências sobre rodas para outros espaços e momentos de empoderamento social e cultural.

As bicicletas urbanas são uma ágil realidade cada vez mais constante entre os tons monótonos de cinza das cidades, configuradas com design, geometria, soluções tecnológicas e um jeito todo próprio de dizer às ruas: vocês são minhas!

Como tão bem ensinava o saudoso educador uruguaio, falecido em 2015, Eduardo Galeano, “muita gente pequena, em pequenos lugares, fazendo coisas pequenas, pode transformar o mundo”. Possivelmente, pode-se aludir tal frase, na atualidade, à tamanha força transformadora que o movimento urbano de ciclistas, incógnito e silente, tem por natureza.

© BrasilImage / Sense Divulgação

É fato que a grande maioria dos ciclistas pelas cidades do Brasil são, ainda, daqueles que têm na bicicleta sua única alternativa ao transporte público caro e de baixíssima qualidade.

E quando assim nos referimos queremos lembrar que somos um país com proporções continentais e com mais de 5.500 municípios, onde a desigualdade leste-oeste e norte-sul, a imobilidade urbana e a insegurança latente ainda são verdades que nos gritam aos ouvidos e saltam aos olhos, ainda que assim não queiramos.

Porém, este é um cenário que se altera, dia após dia, paulatinamente e mediante a tomada de consciência de milhares de novos ciclistas que, a cada nova contagem, transformam a realidade.

Aproveitando o momento de crítica acintosa ao modelo automotor de consumo das paisagens, mais usuários de bicicletas se permitem às ruas, ainda que tal fato seja considerado, por muitos, uma moda mesclada com necessidade e urgência. Que seja!

Ao lembrar das memoráveis Monark Barra Circular, Caloi Barra Forte, Caloi Peri e Ceci, Caloi Easy Rider, enfim, a questão sempre pairava entre os parâmetros de peso, conforto, ergonomia, tamanhos, marchas, etc. Então, ao olhar, hoje, para o que se oferece a cada ano no mercado, pode-se crer que os sonhos de milhares de ciclistas vêm se realizando pouco a pouco. E já era tempo!

© BrasilImage / Sense Divulgação

Além das bicicletas “sem raça definida”, montadas entre o improviso criativo e a possibilidade econômica, vê-se às ruas um transitar de modelos e versões tão variadas quanto poéticas de bikes para a cidade, e que levam a imaginação a não ter limites, quando se trata de traduzir os anseios por mobilidade de uma população cada dia mais crítica e consciente.

Bonitas, as bicicletas são por natureza, não há o que discutir-se.

Porém, a leveza, a durabilidade dos componentes, o conforto aliado à segurança e à praticidade, enfim, fazem com que os modelos urbanos ganhem adictos convictos a cada novo final de semana, seja nos parques das cidades, nas cicloestruturas (ainda que sejam de lazer), indo para o trabalho, escola ou compras.

Talvez, e assim queremos, uma significativa parte dos novos usuários de bicicletas urbanas, neste momento no país, seja composta por indivíduos adultos, pequenas famílias com renda dupla, e pasmem, profissionais com avidez pela liberdade e com uma noção do impacto que pode provocar sua presença e de seu veículo nas cidades, o que faz com que suas escolhas sejam, prioritariamente, a bicicleta.

Falamos de pessoas que bem poderiam fazer uso exclusivo do automóvel, porém, o que se percebe é a mudança, tanto de perspectiva quanto de finalidade, para a noção que eles têm sobre a ocupação das ruas e a respeito do compartilhamento dos espaços nas urbes.

Aproveitamos para esclarecer que, anos atrás, publicávamos matérias constatando que, naquele momento, as MTBs eram a escolha plural de bicicleta para ‘todo o terreno’, porém seu set up e componentes não condiziam com um percurso urbano asfaltado e, nem mesmo, com pessoas vestidas para ir ao trabalho, ao cinema, shopping, teatro, barzinho, pré-vestibular ou clínica.

© BrasilImage / Sense Divulgação

Estamos citando sobre o primeiro ano de nossas edições, quando nem sequer passava pela nossa cabeça que as mudanças seriam tão rápidas e para melhor.

O conjunto de quadro e componentes, hoje ofertado pelas boas marcas do mercado, faz crer que nos aproximamos do ideal em decorrência da experiência, cada dia mais exigente e esclarecida, dos usuários de bicicletas urbanas.

O consumidor compreende suas necessidades e requer dos fabricantes o mais alto grau de excelência empregado na produção da frota que, pouco a pouco, faz das ruas um lugar para se querer estar, em bicicleta, é claro.

É certo que não estamos nem perto do que queremos, mas já não estamos tão longe quanto estávamos há pouco. É, com razão talvez sejamos otimistas e positivos, mas pessoas otimistas e positivas sofrem menos porque creem na realidade como força transformadora dela mesma.

“HOJE, ELAS ESTÃO AÍ, TRANSBORDANDO NAS RUAS, TRANSFORMANDO AS PAISAGENS.”

E, se parecer que estamos superestimando o momento atual, é bom lembrarmo-nos de como estávamos em plena primeira década do terceiro milênio, de qual era a oferta de performance para pedalar nas ruas das cidades, de como se apresentava a profunda e deprimente falta de opções dignas em termos de modelos, tecnologia, materiais, fruição, em resumo, daquilo que representava nossas experiências e aspirações como usuários de bicicletas na cidade.

Éramos órfãos de possibilidades.

Hoje, elas estão aí, como dissemos ao início deste texto, transbordando nas ruas, transformando as paisagens e promovendo a sensibilização de um número cada dia maior de novos usuários, por escolha e por necessidade, ainda bem.

E viva a Bicicleta Urbana, sempre!

Fonte -  Revista Bicicleta.


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