O século XIX viu, em suas últimas décadas, o florescer das atividades ciclísticas no Brasil, sempre ligadas a uma noção de Modernidade importada da Europa.

No Século XIX, a cidade de São Paulo não oferecia muitas atividades lúdicas, com a população abastada frequentando o Jardim da Luz para seus piqueniques, os jovens se banhando nas águas do Tamanduateí, os pobres se dirigindo às touradas na Praça da República e os escravos recolhendo-se às batucadas. Mas, a partir do último quartel do século isso começou a mudar, com a cidade acompanhando as transformações sociais, econômicas e culturais da Modernidade. Os esportes ganharam adeptos, inserindo o território paulistano em uma tendência internacional de difusão de certas modalidades, partida da Inglaterra.

Lá, o esporte moderno se consolidou na primeira metade do Século XIX, desenvolvendo-se entre as camadas mais abastadas como forma de distinção social. Porém, os esportes estavam fadados à popularização, sobretudo devido à influência inglesa em outros países. Retomando o cenário paulistano, certas modalidades esportivas tiveram seus expoentes, mas não caíram nas graças de um grande número de simpatizantes, como foi o caso das raids aeronáuticas e automobilísticas, com Edu Chaves e Ernesto Gattai, respectivamente.

Nas últimas décadas do Século XIX, podemos observar através da imprensa a importância que o esporte vinha tomando na vida da população, com a publicação de 17 periódicos voltados à prática desportiva, entre eles A Bicycleta (1896). Dos esportes inseridos no contexto paulistano no dito século, o ciclismo foi um dos que mais empolgou a juventude, sendo praticado sobretudo por membros de famílias abastadas que voltavam de seus estudos na Europa. Até 1893, as poucas bicicletas que existiam na cidade eram privilégio destes, dentre os quais estava Antônio prado, que após ter voltado de Paris apaixonado pelo esporte, convenceu seu pai a construir um velódromo no terreno da família, localizado atualmente na Rua Nestor Pestana.

A partir de 1894, iniciou-se a importação de bicicletas para o Brasil, aumentando o acesso ao esporte, inclusive para algumas moças, e o Velódromo Paulistano, finalizado dois anos antes, tornou-se a primeira praça de esportes da cidade. Concebido por Tommazo Bezzi e executado por Giuseppe Valori, tratava-se de uma raia elíptica de 380m de comprimento e 8m de largura, com um jardim ao centro e arquibancadas em volta, com uma capacidade de 700 a 1000 espectadores em cada um dos dois lados. Porém, apesar da “febre” pela qual a cidade passou, o preço elevado das bicicletas fez com que a atividade perdesse alguns de seus adeptos no decorrer dos anos, e o velódromo passou a abrigar disputas futebolísticas.

Também em fins do Século XIX, o ciclismo vinha se popularizando no Rio de Janeiro, através de clubes como o Sport Club Villa Izabel e o Real Sociedade Club Gymnastico Portuguez, cujas provas ciclísticas eram reservadas a momentos especiais, como festas. Porém, com a inauguração do Club Athletico Fluminense, em 12 de Julho de 1885, as provas com bicicletas tornaram-se mensais, com páreas que iam dos 500 aos 1800 metros, dependendo da idade do participante. Apesar de o clube ser frequentado pela alta sociedade (como fica claro ao saber que D. Pedro II esteve presente em sua inauguração), a dificuldade na aquisição de uma bicicleta fazia com que as provas contassem com algo entre 2 a 5 participantes em seus primeiros anos.

Saindo do eixo Rio-São Paulo, Porto Alegre também contou com um desenvolvimento do ciclismo na transição entre os Séculos XIX e XX, sendo que na década de 1910 a cidade contava com duas associações voltadas ao esporte: União Velocipédica de Amadores, criada em 1895 e a Radfahrer Verein Blitz, ou Sociedade Ciclística Blitz, de 1896 e associada ao Ruder Verein Germania. As disputas entre os dois grupos eram divulgadas pela imprensa, com o jornal Gazetinha publicando durante quatro dias seguidos textos tratando do tema e de seus benefícios para a saúde. Tais reportagens, que contribuíram significativamente para o desenvolvimento do ciclismo na cidade, além de relacionar a bicicleta com a saúde, apresentava-a como um símbolo de modernidade, em um momento onde a capital gaúcha passava por intensas transformações sociais e urbanas.

Portanto, podemos perceber que o Século XIX viu, em suas últimas décadas, o florescer das atividades ciclísticas no Brasil, sempre ligadas a uma noção de Modernidade importada da Europa. Aqui, a imprensa teve um importante papel de divulgação do esporte, narrando suas competições e apresentando os benefícios de sua prática. Porém, devido a uma falta de incentivos e ao seu alto custo, evidenciado pelos ambientes de elite onde se desenvolveu, o ciclismo acabou perdendo adeptos para o futebol, por exemplo, apesar de manter seus fiéis praticantes por todo o Século XX e XXI.

Sobre o autor

Willian Vicari

Willian Vicari

Licenciado em História pelas Faculdades Metropolitanas Unidas (2018), o pesquisador é parte do Programa de Pós-Graduação em História da Arte, mantido pela UNIFESP.
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Escreve na primeira segunda-feira de cada mês.

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