Com o medo da contaminação no transporte coletivo, o mundo começa a dar exemplos de que a mobilidade ativa vai ganhar mais atenção quando o coronavírus aliviar.

O medo da contaminação pelo coronavírus mudará a sociedade por muito tempo e será um problema a ser enfrentado mundialmente no pós-pandemia. E na mobilidade urbana ainda mais. Como já falamos, a tendência é que as pessoas fujam do que é coletivo. Ônibus e metrôs talvez nunca mais recuperem a demanda que tinham no pré-pandemia, que já acumulava perdas.

Nesse cenário de pessimismo, há uma corrente, fortalecida por algumas ações mundiais, que enxerga o transporte ativo – especialmente a bicicleta – como protagonista de cidades melhores. Como a sociedade já percebia e passou a saber ainda mais com a efervescência da natureza diante da imobilidade humana, o planeta não suportará se todos tirarem seus carros da garagem ou adquirirem um. Sendo assim, transformar a ciclomobilidade em ator principal, abrindo espaço para a infraestrutura que ofereça segurança viária para as pessoas pedalarem, é uma decisão vista como esperança para o futuro.

Mas não adianta usar essa lógica apenas no discurso, sem exercê-lo na prática. Quem não tem opção, usa a bicicleta de qualquer forma, em corredores viários de tráfego pesado, mesmo sem qualquer segurança. Mas é a estrutura cicloviária que estimula e faz as pessoas usarem a bike como meio de transporte. Principalmente as classes média e alta, que serão as que mais condições de adquirir carros terão no pós-pandemia. Por sorte, o mundo começa a dar exemplos de que a mobilidade ativa vai ganhar mais atenção quando o coronavírus aliviar. Não só a bicicleta, mais também o caminhar com o alargamento de calçadas.

Milão, na Itália, anunciou no dia 21/4 um plano ambicioso de realocar o espaço das ruas para o uso da bicicleta e do pedestre como estratégia para evitar o ressurgimento do uso e dependência do automóvel. Foi batizado de “Strade Aperte” (Rua Aberta) e seria uma resposta à crise do coronavírus, já que a região da Lombardia, no Norte da Itália e cuja capital é Milão, é uma das áreas mais poluídas da Europa e está vivenciando uma redução da poluição com a diminuição de até 75% dos congestionamentos. A região, inclusive, foi especialmente afetada pelo surto de covid-19. O plano para já prevê a transformação de 35 quilômetros de ruas durante o verão europeu em espaços com ciclovias temporárias, baixo limite de velocidade e ruas exclusivas para pedestres e ciclistas.

Não só o medo das algomerações no transporte coletivo, mas também a poluição tem pesado demais nas decisões de gestores mundiais que estão passos à frente do Brasil porque já começam a estruturar o pós-pandemia. E não é para menos. Além dos danos já conhecidos e do fato de que o planeta viu e sentiu os benefícios de não tê-la, a poluição pode estar diretamente atrelada à fatalidade pelo novo coronavírus. Alguns estudos pelo mundo associaram altas concentrações de poluição a elevados números de mortos em grandes cidades.

Na Alemanha, um estudo da Universidade Martinho Lutero de Halle-Wittenberg, mostrou que 78% das mortes por coronavírus nos quatro países mais afetados da Europa – Itália, Espanha, Alemanha e França – ocorreram em apenas cinco das 66 zonas administrativas que compõem esses países. E que essas cinco zonas estão concentradas no Norte da Itália e em Madri, sendo as regiões mais poluídas desses países. O estudo foi publicado na revista Science of the Total Environment.

Redução intencional no transporte coletivo

Há alguns países, inclusive, que estão limitando o uso do transporte coletivo para a fase pós-pandemia como forma de minimizar as possibilidades de contágio – já que todos sabem do risco que ônibus e metrôs representam pelo volume de pessoas que os utilizam. O Metrô de Madri, por exemplo, já determinou que irá transportar apenas 30% da demanda pré-pandemia após a quarentena. Além de manter o teletrabalho e turnos escalonados, o governo da cidade espanhola recomendou, para os próximos meses, o uso da bicicleta e do carro.

Propostas de ampliação dos espaços para a bicicleta em Milão, na Itália – Reprodução web

Ciclovias provisórias em Berlim

Algumas cidades alemãs estão redesenhando as marcações das ruas e avenidas para criar ciclovias provisórias durante os bloqueios da pandemia. Foi uma forma de dar mais espaço aos ciclistas que usam a bike em seus deslocamentos para o trabalho. As ciclofaixas são chamadas “pop-up” porque surgem nas ruas, sendo de fácil implantação. Em Berlim, por exemplo, a estrutura foi montada com fita removível e sinais móveis para marcar as faixas expandidas, que podem ser removidas posteriormente. O projeto começou como um piloto no fim de março, mas já agradou. É tanto que outras 133 cidadães alemãs receberam pedidos para instalação de estruturas semelhantes.

O exemplo mundial de Bogotá

Bogotá, capital colombiana, começou a operar uma ampla malha temporária para bicicletas no fim de março como alternativa ao medo do transporte coletivo e ao uso do automóvel. A estrutura – vale ressaltar – não foi criada para ser utilizada como lazer. Ao contrário. São 76 quilômetros de ciclofaixas móveis implantadas em corredores e eixos estruturantes da cidade para serem usados por quem pedala como meio de transporte. A medida começou com 22 km, mas dias depois houve a ampliação para os 76 quilômetros atuais. A rede está em eixos estruturantes de Bogotá e que antes eram utilizados pelo tráfego de automóvel. Funciona de segunda à sexta, das 6 horas às 19h30.

Fonte: Revista Bicicleta

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