Com as handbikes off-road, cadeirantes seguem em busca de uma vida mais próxima da que tinham antes da lesão.

A diversão dos garotos californianos descendo montanhas com suas bicicletas, na segunda metade do século passado, popularizou o que hoje conhecemos como mountain biking. Eles buscavam desafios diferentes dos existentes nas tradicionais competições de estrada. A proximidade com a natureza, o desafio de superar obstáculos, raízes, trilhas estreitas, pedras, terrenos de diferentes composições e topografias, logo atraiu muita gente e o MTB virou uma grande revolução, tanto para a indústria ciclística quanto para as opções de lazer e esporte.

O mineiro Alessandro Fernandes, de Belo Horizonte, foi um dos “seduzidos” pela novidade. “Eu era downhiller, daqueles com um parafuso a menos, que desce a montanha pedalando enquanto todos descem freando. Bike era a minha vida, eu era completamente apaixonado pelas duas rodas”, revela. Mas em 2006, um acidente de moto o obrigou a interromper as pedaladas: Alessandro ficou paraplégico e tornou-se cadeirante.

O mineiro Alessandro Fernandes, de Belo Horizonte. © Alessandro Fernandes / Arquivo Pessoal

Apesar das dificuldades, ele não perdeu o ânimo. Ao invés de ficar abatido por não poder mais fazer algumas coisas que amava, buscou adaptar-se à nova realidade e explorar novas possibilidades. Criou o Blog do Cadeirante, para compartilhar notícias, dicas e novidades com outras pessoas na mesma condição que ele. E ano passado, entre tantos assuntos abordados, Alessandro pôde publicar um dos posts mais esperados: “Trilha de Handbike”. “Era um sonho pós-cadeirante, poder sentir novamente a adrenalina de realizar uma trilha e a liberdade de estar praticando um exercício físico próximo à natureza”, comemora.

Conceito e história

A handbike (hand = mãos) é bastante semelhante às bicicletas reclinadas, porém, com a peculiaridade de possuir três rodas e de ter os pedais posicionados para serem acionados com as mãos. As mais conhecidas são projetadas para andar no asfalto. Estas, da mesma forma que as bicicletas speed, possuem pneus finos e lisos para diminuir o atrito e são rígidas. Em alguns modelos, a estrutura em que o ciclista senta é bastante semelhante a uma cadeira de rodas.

O sistema de câmbio, freios e pneus segue o padrão das bicicletas. Os controles utilizados são as manivelas (equivalente aos pedais) e alavancas de freio e câmbio. A faixa de preço das handbikes mais simples fica na casa dos R$ 2 mil; outros modelos mais sofisticados custam em torno de R$ 5 mil; e as importadas podem chegar a mais de R$ 10 mil.

Sua história é interessante. Em 1655, um relojoeiro deficiente chamado Stephan Farfler, jovem alemão com então apenas 22 anos, construiu um veículo muito similar a uma handbike: um triciclo de madeira com tração manual. Farfler tinha uma técnica apurada para trabalhar com engrenagens dos relógios, e essa habilidade provavelmente o motivou a construir o próprio meio de transporte. Depois, também construiu um veículo de quatro rodas com acionamento manual. Mas a handbike moderna começou a ser fabricada, de fato, no início da década de 1980, nos Estados Unidos.

Handbike Off-road

Juntar o MTB com a handbike era o sonho do Alessandro – e é o sonho de muitos cadeirantes. “Com minha nova realidade, sabia que seria necessário substituir algumas paixões por outras. Então, comecei a pesquisar sobre a possibilidade de voltar a pedalar, mesmo sendo cadeirante, e descobri a handbike. Comprei minha primeira em 2011, o que trouxe de volta a satisfação de pedalar”, diz Alessandro, que complementa: “mas faltava alguma coisa. O mato, o barro… Comecei, então, a procurar uma handbike com que eu pudesse andar na terra. E não é que encontrei?”.

Veteranos de guerra montando suas handbikes nos EUA. © Bill Lasher / Lasher Sport

As handbikes para terreno off-road ganham pneus “garrudos”. Além disso, algumas também possuem um sistema de suspensão nas rodas traseiras. Alguns modelos contam com um “volante – peito”, que serve para que o piloto consiga realizar o comando de virar ou manter a linha reta usando o corpo, enquanto as mãos são utilizadas apenas para girar as manivelas. Freios a disco e câmbios de cubo interno equipam os modelos mais eficientes. Além disso, há um apoio para as pernas, que podem ficar dobradas para trás, como se o usuário estivesse de joelhos, ou podem ficar retas para a frente. Aqui no Brasil, a produção geralmente é feita apenas por encomenda, e há poucos fabricantes, o que é compreensível por ser um nicho bastante específico.

A fabricante norte-americana Lasher Sport possui um modelo bastante sofisticado e inovador. Bill Lasher, fundador da empresa, ficou paraplégico em um acidente de esqui, em 1985, o que motivou o início da empresa. Ele conta: “Nossa empresa começou fabricando cadeiras de rodas. Quatro anos atrás, começamos a fazer handbikes off-road porque eu vivia no Alasca e queria poder me locomover fora da estrada. Naquela época, quase todas as handbikes eram oferecidas apenas na versão ‘speed’, ou seja, apenas para estrada. No início de 2013, oferecemos a nossa primeira handbike full suspension (ou seja, com suspensão nas três rodas), que é algo único disponível no mercado mundial”.

Assim como acontece no Brasil, Bill explica que as vendas são realizadas principalmente para o consumidor final: “Atendemos pedidos que o cliente faz diretamente para nós. Isso ocorre porque o número de usuários de handbike off-road é pequeno, e é difícil popularizar a conscientização sobre nossos produtos. Mas em cada venda há uma sensação muito boa, por saber que algo que nós produzimos é capaz de ajudar alguém a voltar ao esporte que ama. Quando um ciclista de MTB sofre um acidente e não é mais capaz de pedalar, ele fica muito feliz quando descobre uma handbike off-road e volta às trilhas”.

Trilhas e diversão

Se de bicicleta os obstáculos já são bastante desafiadores, tudo fica mais difícil em uma handbike. Segundo Alessandro, “a principal dificuldade é subir, pois como a handbike tem tração dianteira, é baixa e mais pesada, fica complicado tracionar na terra. Além disso, a aplicação da força com os braços é diferente do que seria com as pernas”.

A handbike também age diferente do que a bicicleta no trajeto mais acidentado. Em desníveis, por exemplo, as duas rodas alinhadas atrás tendem a virar o veículo. Apesar disso, segundo Alessandro, “o centro de gravidade baixo faz a handbike ser bem estável em curvas”. Uma dica é levar alguns amigos para pedalar a trilha junto: talvez você precise de alguém para ajudar a empurrar ou rebocar a sua handbike em uma subida mais íngreme.

Bill também chama a atenção para outro detalhe: assim como acontece nas cidades, a falta de acessibilidade pode ser uma causa de exclusão das pessoas portadoras de deficiência! “Não há muitas organizações que fazem trilhas específicas para handbikes off-road. Geralmente, as trilhas para bicicleta comum são grandes o suficiente para receber uma handbike, embora nem sempre seja assim… Mas eu penso que a novidade está pegando e as modificações necessárias para incluir as handbikes off-road estão começando a sair. Já recebi telefonemas de algumas ONGs pedindo a largura das nossas handbikes, para que eles possam fazer as trilhas grandes o suficiente para acomodá-las”.

A diversão, adrenalina e sentimento de superação acompanham, na mesma medida, o aumento das dificuldades. “As melhores sensações em poder voltar a fazer trilha são sentir o vento no rosto, ouvir o barulho da corrente passando pelo câmbio e catraca, e superar obstáculos em meio à natureza. Voltar a descer montanha, curtindo a velocidade e a sensação única de desbravar uma trilha, não tem preço”, afirma Alessandro.

Outra fabricante, a polonesa Sport-on, publicou um vídeo muito interessante para apresentar a sua “Explorer”, uma handbike off-road. O executivo da empresa, Jaroslaw Rola, que já participou de jogos paraolímpicos, o motivo para o início da Sport-on foi poder dar às pessoas com deficiência a oportunidade de estarem nas trilhas novamente. Ele diz: “A handbike concebida para lidar com condições extremas de off-road oferece oportunidades sem igual para pessoas com deficiência, por levá-las a locais que até então só poderiam ser vistos em cartões postais. Lugares como montanhas, trilhas e praias já não são mais inacessíveis. A Explorer já levou usuários aos mais altos picos da Europa, incluindo Alpes e Tatra. Também, já participamos de uma expedição bem-sucedida ao Monte Kilimanjaro, o pico mais alto da África. Temos nossas handbikes em todos os continentes, e o que mantém nossa motivação é quando vemos fotos e vídeos de pessoas felizes de todo o mundo, as utilizando nos lugares mais improváveis”.

Na abertura do vídeo da Explorer (disponível em www.youtu.be/-Q2T5Q8G5VE), a mensagem do escritor norte-americano Mark Twain (1835 – 1910) resume bem o sentimento destes caras: “Daqui a 20 anos você estará mais arrependido pelas coisas que não fez do que pelas coisas que fez. Então, solte as amarras. Afaste-se do porto seguro. Agarre o vento em suas velas. Explore. Sonhe. Descubra”.

Uma handbike off-road é a tradução de que você, independentemente de qualquer limitação, deve ir atrás de suas paixões. Definitivamente, nada é impossível!

Fonte: Revista Bicicleta

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